

. pintura .
A Outra Coisa
de
Lisboa
11 Janeiro |8 Fevereiro 2025
Luísa Costa Gomes
Coelho, pastel de óleo sobre papel, 100cm X 70cm
À maneira bonarde e de outras maneiras e outras coisas
Quando em 1966, Júlio Pomar, depois de dois anos fora de Portugal e dos êxitos colhidos em Paris, se apresentou na Galeria de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, com os quadros que pintou bafejados pela atmosfera parisiense, o crítico urugaio Nelson di Maggio publicou no Jornal de Letras o artigo «Alla Maniera Di Boldini». Ali se lia: «O autêntico criador de formas está ausente. E o que se evidencia ostensivamente é o pintor sensível, agradável e superficial, para contentar o gosto de uma burguesia cómoda e satisfeita. Como Boldini no século passado. Todas as telas estão muito bem resolvidas e calculadas. Quem poderia ficar indiferente? Quem poderia deixar de sentir um sentimento fruitivo?» [1]. Haverá, como é uso dizer-se, e ora se impõe, que guardar as devidas distâncias, de visão, de valor e de vida artística, entre o pintor Pomar e a pintora Luísa Costa Gomes. Mas para o argumento que daqui em diante se desenrolará, a apreciação de di Maggio sobre Pomar pode ser transposta ‘praticamente’ verbatim para falar da exposição de pintura «A Outra Coisa», na Galeria Monumental em Lisboa, de Luísa Costa Gomes. Praticamente, porque em vez de ser «alla maniera di Boldini», em Costa Gomes é, aflitivamente, «à la manière de Bonnard». E praticamente ainda, porque no caso de Costa Gomes, só a custo pode dizer-se que «todas as telas estão muito bem resolvidas e calculadas», e isto com toda a galhardia para ela. Sendo que, na verdade, nem todas as pinturas expostas estão tocadas por essa maneira bonarde que revelam uma artista mais do que inspirada por um pintor do ‘século passado’, Pierre Bonnard (1867-1947), está talvez por ele dominada: «e penso em Bonnard como espectadora das suas luzes, numa homenagem o seu tanto gauche [sic] e carnavalesca», escreve a pintora na folha da exposição.
O que sucede porém, é que a pintura de Costa Gomes, mormente a dos quadros a pastel de óleo (como o são a totalidade dos quadros desta exposição), expostos na segunda sala da galeria, não mostra apenas uma artista dominada por outro artista; praticamente – e medimos as palavras –, possuída pela maneira de outro artista. Mostra antes uma estudiosa dedicada, se não obsessiva, de Bonnard. E bem para lá do universo temático, da técnica ‘ilusionista’ e divisionista do pintor, e do cromatismo saboroso que é o dele, aos modos daquilo que uma discípula disciplinada faria, ou na linha de uma inspiração epigonista, com o que isso haveria de transformar esta pintura numa mera curiosidade anacrónica, o bonardismo de Costa Gomes resulta antes de um rigor visualista que a transporta para a vizinhança do que são, e sempre foram, as experiências pictóricas investidas de um cientifismo óptico, no caso, proto-oftalmológico. Nestes quadros, a cultura visual reclama-se muito mais dos “testes de cores de Ishihara” [os testes de daltonismo], do que do sentido fenomenológico de que o olho é também um pedaço de carne que devolve percepções ‘em carne’, no corpo, nos ossos e que o enorme último meio século de grande pintura, de Rothko a Freud, de Rego a Richter, colocou num ponto sem retorno em relação aos deslumbramentos oculares das vanguardas, sejam elas figurativistas ou abstractionistas, e que Maurice Merleau-Ponty ordena que recue a Cézanne, o menos impressionista dos pós-impressionistas. É pois aquele “opticalismo” militante que torna a obra de Costa Gomes se não datada, pelo menos escolar. E se descontarmos a técnica da mancha-fragmento que a pintora pratica com um virtuosismo excelso e cheio de panache, nada comum, parecerá, numa artista na sua segunda exposição individual, sobram quadros com composições e enquadramentos penosamente triviais, batidos pelo lugar-comum realista de que numa vista, o peso das figuras obriga-as à lei da gravidade e têm por isso de ser colocadas no terço inferior do campo de representação. Desta série de quadros bonardistas, o único que não respeita esta lei é o muito conseguido, «The Obvious Boy Rabbit», porque o modo como rompe com a ideia à bon marché de campo pictórico, acrescido de um motivo iconográfico cruzado entre o horror-pop e o creepy-kitsch – o retrato de um coelho-de-BD em seu close-up desfocado –, fazem dele uma peça simultaneamente perturbante e prodigiosa. Outra coisa.

Luísa Costa Gomes
The Obvious Boy Rabbit, pastel de óleo sobre papel, 41cm X 32cm
Pode dar-se o caso de esta colagem ultra-virtuosística da pintora Luísa Costa Gomes à obra de Bonnard dever ser lida à luz do partido artístico de Luísa Costa Gomes escritora, que um jornal, em entrevista recente, apresentou como «romancista, dramaturga, contista, poeta, cronista, tradutora, editora, autora de um libreto de opera ([sic]; [libretista]), e agora também autora de canções [letrista]» [2]. Ou seja, como trabalho de uma experientíssima experimentadora de géneros, de registos, de outras vozes, de outras coisas. Uma verdadeira polígrafa. O que foi sempre exercitando a um tempo com solidez inigualável e recuos desarmantes. Estas qualidades em desconcerto deixaram a Costa Gomes espaço para posicionar-se artisticamente como grã-cultora do irónico, do inclassificável, do heterodoxo, mas que não se confundem nem com o excêntrico, nem com o extravagante, nem com o transgressivo. Costa Gomes tem no portefólio ter protagonizado dois episódios maiores no que poderá um dia vir a ser considerado como um manual para a execração da vulgaridade artística nacional. O primeiro. No romance Olhos Verdes, que publicou em 1994, uma das peças literárias mais sofisticadas e respeitadas da literatura portuguesa de final de novecentos, inseriu um capítulo totalmente destacável dos restantes capítulos, e, aparentemente, do enredo narrativo. Trata-se de um extenso ensaio filosófico-biográfico, de pendor académico, sobre o filósofo e bispo irlandês George Berkeley e que transmitiu ao romance um sabor pós-narratológico, pós-moderno e mesmo desconstrutivista, de tão raríssima envergadura, que transformou Olhos Verdes num eterno caso de estudo a decifrar. Sucedeu que perguntada sobre o sentido desta solução romanesca, sustentou a resposta de ao ensaio sobre Berkeley o ter já escrito muito anteriormente ao romance, e como o achava bem escrito e não tinha onde publicá-lo, colocou-o dentro do romance. O segundo. Quando convidada pelo magazine cultural televisivo Câmara Clara da RTP2, na emissão do dia 11 de Novembro de 2007, e respondendo sobre o interesse na exposição Centre George Pompidou Vidéoart 1963-2003 Quarenta Anos de Videoarte, então no Museu do Chiado, deu a saber que ainda não a tinha ido ver, e que não a iria ver, porque a videoarte era das artes mais desinteressantes, isto para surpresa da autora do programa e espanto do outro convidado. Logo após, ao ser-lhe de novo perguntado o interesse no evento que o alinhamento do magazine divulgava a seguir, esclareceu: «não sou muito dada a novidades, prefiro ficar em casa a ler os meus clássicos à lareira, mas desta vez, vou a tudo, já não me apanham a dizer que não vou, vou ver tudo, todos os dias, porque é tudo importantíssimo, com certeza que é importantíssimo» [3].



Luísa Costa Gomes
Cabeça Verde
pastel de óleo sobre papel,
100cm X 70cm
Luísa Costa Gomes
Cabeça Vermelha
pastel de óleo sobre papel,
100cm X 70cm
Luísa Costa Gomes
Cabeça Azul
pastel de óleo sobre papel,
100cm X 70cm
Poderemos pois alvitrar que os dez quadros da pintora Luísa Costa Gomes na exposição «A Outra Coisa», obstinadamente pintados à maneira de Bonnard, não sejam assim importantíssimos, tendo de recuar até à primeira sala para encontrar pintura que valha a pena ver todos os dias, a qual também ainda não está nesse tríptico, cheio de correcção, constituído por «Cabeça Verde», «Cabeça Vermelha», «Cabeça Azul», com que a exposição foi divulgada, e mais os seus cromatismos de edredon e uma composição figura-fundo de design de comunicação. Há, sim, pintura de fibra e matéria impaciente, própria de quem dá respostas tortas e largou a complacência para com as subtilezas televisivas da arte do burgo, nesse quadro estranhíssimo, coloração no espectro do abrasivo, castanhos putrefactos, vermelhos costurados, alinhamentos feitos de bizarrias visuais e contorções ósseas, manchas com a geometria de unhas roídas, a figura retratada com uma mutação de aspecto wittgensteiniana, e ainda o muito simples e solitário título «Coelho». Outra coisa. Outra caça.
[1] Nelson di Maggio, «Alla Maniera Di Boldini» in Jornal de Letras e Artes, 1966, p. 8.
[2] Jornal Público, Edição nº 12 566 | Ípsilon | Sexta-feira 27 de Setembro 2024
[3] Câmara Clara II emissão de 2007-11-11, «Luísa Costa Gomes e Manuel José Damásio», 1:06:03 [url: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/luisa-costa-gomes-e-manuel-jose-damasio/]
JBC
08 de Fevereiro 2025
Luísa Costa Gomes
Coelho, pastel de óleo sobre papel, 100cm X 70cm




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