CABRITA UNABRIDGED
>>A gemiparidade Carlos de Oliveira, António Cabrita, não pode ser levada muito para além daquela quase bizarria do escritor que é duplamente talentoso, excelentíssimo e próspero, tanto na criação poética, quanto na ficção em prosa. Não só há circunscrições temáticas que os afastam, como não partilham igual órgão de ferramentas (nos poemas, por exemplo, Oliveira é cultor de uma silogística naturalista, Cabrita, da elipse aurática). Há, no entanto, um topos da criação literária que configura um recinto que é frequentado por ambos e que, curiosamente, os torna quase sobreponíveis, mormente na produção ficcional. Trata-se da construção e caracterização de um território de pertença.<<<
. livros . poesia . ficção
António Cabrita, vários
[The Poets and Dragons Society, 2025, 2026]
[Teodolito, 2026]
[Editora Exlamação, 2019]
[Fenda, 2000]
Cabrita unabridged,
ou Cabrita, Cabrícia, Cabreza
«Não há pior egoísmo que o da cobardia, é o único que não se demove porque é inervado pelo medo». António Cabrita, Se Não me Quiseres Amar Agora no Inverno, Quando? (2025) [p. 85]
[este artigo não é uma recensão; tem 5000 palavras; tem 5 secções; tempo médio de leitura: 20 min]
Obras
Viagem aos Confins & Volta (2026) [VC]
Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins (2026) [DS]
Se Não me Quiseres Amar Agora no Inverno, Quando? (2025) [SQ]
As Cinzas de Maria Callas (2025) [CM]
Make Sequóias Great Again (2025) [MS]
Fotografar Contra o Vento (2019) [FV]
Arte Negra (2000) [AN]
1.
Haverá que recuar a Carlos de Oliveira – ou, talvez antes, remontar, guindando-se-lhe o sentido –, para encontrar na produção literária portuguesa, quem, a um só tempo, se faça obter da expressão poética e da expressão narrativa resultados igualmente de estimar. E será bom que a esta alegação se lhe reconheça modos graves e um conteúdo delicado, porque ela abre vias para um debate tão agitado por equívocos estirilizantes e por contradições inservíveis, mas também por entusiasmos imprudentes, que arrisca a ociosidade e a fanfarronice. Porque afirmar que desde Carlos de Oliveira, ninguém como António Cabrita tem cultivado tanto o verso quanto a prosa com o mesmo conseguimento indomável, ou vindo ainda a afinar, com igual favor, uma voz poética tenaz, e uma oficina ficcional laboriosa, é percorrer aquele debate pela via da vulgarização, o que, mesmo necessária e útil, nem a obra de um, nem tão-pouco a de outro aceitam. Do mesmo modo que outras vozes pelo meio não o aceitarão. E o que será menos aceitável ainda é que a via genológica, a da teoria dos géneros, prosa, poesia, narrativa, drama, colóquio, ensaio, crónica, prédica, canção, seja atropelada por uma catalogação feroz, que faz com que aos livros dos dois – de resto, como, agora, a todos os livros de todos os autores – se lhes seja ferrada, in frontispício, a categoria «romance» e «poesia», o que, por exemplo, e felizmente, tem deixado O Aprendiz de Feiticeiro (1971) de Carlos de Oliveira desetiquetado, e terá permitido que Tristia (2021) de António Cabrita, com o destemor das suas trezentas e cinquenta páginas num livro de poesia não antologiada, tenha sido simplesmente marchetado com a bem-parecida classificação formal «[um díptico e meio]» (sic), assim, entre parêntesis recto, constitua isto, ou não, um subtítulo da responsabilidade do autor. Ora, o que o empacotamento genológico provoca é um efeito decapante das práticas autorais artisticamente outorgadas, e que exige que o debate sobre o escritor-que-é-igual-de-poeta-que-de-prosador seja instruído por reflexões da teoria da literatura, por achados da literatura comparada, e por conjecturas dos estudos de recepção, de que aqui não se faz eco, nem no timbre, nem na finalidade, mas que não impede continuar a insistir nas perguntas desmoralizantes, tais, se Finisterra: paisagem e povoamento (1978) faz de Oliveira um romancista, e se a secção «Caderno de Entrevistas» de Arte Negra (2000) faz de Cabrita um poeta. Desplantes que podem igualmente ser dirigidos a Laurence Sterne ou a Rabelais, e que, na verdade, são o reflexo de que o projecto da modernidade está inacabado. Senão, distorcido.
Mas a tese temerária, António Cabrita é o Carlos de Oliveira de agora, que é indiscutivelmente ainda uma airosa bagatela, merece ser travejada com desvelo empírico, mas não menos excursivo e especulativo. Primeiro, a partir da observação de carácter geral (mas também genérico) acerca da raridade do sucedimento de poeta e ficcionista – que por mor de simplificação, verteremos por prosador –, virem a encontrar-se, por força da catapulta de um dom, num único autor. Tido como escritor. É certo que se descontarmos as modalizações culturais, das quais a anglo-saxónica e a germânica são as mais reconhecíveis – Thomas Mann, prosador, é tanto Dichter (poeta) quanto o é Rainer Maria Rilke, versejador –, ou ainda os casos hiperplásticos – desde o bardicismo shakespeareano, ao gigantismo goetheano, até ao titanismo victor-huguista –, a clivagem de lavrança entre poesia e prosa sobrepõe-se a toda a contingência, e apresenta-se qual constante de cultura, impondo-se como necessidade lógica. De tal jeito, que não é já no plano da literatura que semelhante cisão se torna numa dogmática, mas sim no plano da fala (da comunicação), onde se transforma simultaneamente numa didáctica e numa pragmática: treinar a prosa, exercitar o verso. É neste pé que aqueles que têm um prosador que lhes escreva as memórias, têm um escritor. Os que têm um escritor que é ficcionista – ou poeta, que seja –, têm meio escritor. Os que têm um escritor que é prosador, ficcionista e poeta, não têm escritor nenhum. Fica pois fundada uma tradição dúplice e inclemente que, de um lado, só admite integristas virtuosos, fincados, por assim dizer, sobre o que há-de ser bem-sucedido, e do outro, aventureiros, que arriscam a inexistência. Nos muito excepcionais interstícios de glória, tem-se Carlos de Oliveira e António Cabrita. Entre escassíssimos outros. É tensionado pelo argumento desta tradição, vertida para a realidade portuguesa, que cumpre, em refutação segunda, sondar aquele: António Cabrita é o Carlos de Oliveira de agora. E a tradição terá de alimentar-se de uma história da literatura que, sem desprimor para com a robustez do argumentário, não precisa de alcandorar-se acima de escolar, nem de retroceder além do romantismo convencional. Para concluir pois, não sem escândalo, que de Almeida Garrett a Carlos de Oliveira, em cento e trinta anos de intervalo, os Janus poetas-prosadores da literatura portuguesa, acabaram afectados por uma paralisia facial num dos hemisférios, o que lhes deslustrou aquele brilho que tanto Garrett quanto Oliveira preservam, ainda agora, em dupla face. Já que: em Herculano, dono de uma prosa cristalina e de uma ficção magnética, qualquer dos versos provém de um herbário desidratado; de Teixeira de Pascoaes, senhor de uma poética misticamente rigorosa, a extensíssima prosa é todo o atravessamento dum deserto beato; com Pessoa, a prosa de Bernardo Soares, em seu mentalíssimo Livro do Desassossego, oferece tantos transtornos estilísticos à saúde da prosa, que transformam a desvairada «Ode Marítima» de Álvaro de Campos numa manobra de desentupimento narrativo; de Sá-Carneiro, a poesia feérica e cheia de estrépito, ofusca a ficção arrojada, cujo fôlego sustentou um só romance; em Almada, a pujança do romance único, Nome de Guerra, transforma o autor do poema «Primavera» num poeta insuportável; a espessura da poesia de Régio posta a sopesar com a densidade da sua ficção-em-velha-casa resulta num peso morto, de que só se redime no drama Benilde ou a Virgem-mãe; Nemésio até teve uma respeitável musa nemésica, mas foi autor de um romance do século dezanove na rasgada cena aberta do século vinte; em Torga, o telurismo da poesia tropeça em andanças nativistas muito diminuídas pelo universalismo da prosa limpa que, com pena muita, não descola do didactismo juvenil e do moralismo confortável, e que, por sorte, nunca se concretizaram numa desbunda romanesca.
2.
É então que o que atrás se disse, e o excurso já vai longo, acaba por ser redutível à mais vagabunda das constatações, a geracional. Para considerar que a cada geração, o seu Carlos de Oliveira, a cada geração, o seu Cabrita. E de facto, se quisermos cavar o argumento artificioso de que entre um dos escritores e o outro há uma só geração de diferença, restará regressar ao tapete rolante de nomes, para averiguar que, apesar da prosa diamantina dos contos, Sophia é poeta e não é ficcionista; apesar do ensaísmo aúlico em sua poderosíssima prosa, e autor de um único romance capital, Sena é poeta e não é romancista; apesar de Os Passos em Volta, Herberto é poeta; apesar dos versos estelares de O Começo de Um Livro É Precioso, Llansol será tão-só ficcionista; apesar dos poemas inquietantes de A Terceira Miséria, Hélia Correia é uma ficcionista; apesar de um labor poético com cinco décadas, e reunido com requinte no livro Doze Mapas – prefaciado por um formidável tycoon da poesia portuguesa do momento –, Mário Cláudio é um prosador. Na verdade, este jogo faceto, quase um teste de Rorschach, onde está o grão-vizir-da-prosa-poesia-ficção do último sultanato da literatura portuguesa, pode tropeçar em alguns vultos de fina silhueta e forte contraste, onde consegue lobrigar-se Maria Teresa Horta, Vasco Graça Moura, Manuel António Pina, Armando Silva Carvalho, António Manuel Pires Cabral, João Miguel Fernandes Jorge, e, mais recentes, o secretíssimo Fernando Guerreiro, Ana Marques Gastão, Paulo José Miranda, Rui Lage, mas nos quais não é possível distinguir aquele desenho de uma oeuvre en bloc, que é, dir-se-ia, praticamente uma teoria unificada das coisas, da vida e do mundo, ou do modo de construir e representar literariamente uma certa vida e um determinado mundo. Unicidade, de poesia e de prosa, que, tratando-se possivelmente de um valor discutível, a obra de Carlos de Oliveira traça de forma muito recortada e infungível. Como a de António Cabrita.
3.
Que de seguida se escorregasse numa operação de cotejamento contabilístico, para comparar o número de romances (e congéneres) e o de livros de poesia (e o período de publicação), entre os dois autores, Oliveira e Cabrita, seria arruinar, com a sensibilidade de um guarda-livros, a conjectura de uma homologia entre eles. Mas o facto de António Cabrita, nos últimos cinco anos, ter publicado seis volumes de poesia, três romances, um livro de ensaios, três colectâneas de ficção e reeditado um livro de contos, isto em diferentes casas editoriais, todas chancelas exigentes, e sem que por isso tenha sido atirado para uma ribalta resvaladiça, mesmo que com a entremeação de prémios literários, não faz dele apenas um escritor abundante. Faz dele um caso espelhado do de Carlos de Oliveira, que, entre 1943 e 1948, espalhou uma firmíssima poesia pelas comarcas mais diversas, e que descolando-o do neo-realismo searista, hipnotizando os órfãos do modernismo presencista, asseverando o experimentalismo verticista, erigiu, com apenas três romances assentes sobre uma mesma casa editorial, a novelística mais desafiante e mais portentosa da prosa portuguesa de meados de novecentos (non obstant Agustina, Vergílio, et alii), e com fulgor tal, que no espaço de cinco anos era adaptado ao cinema e adoptado nos estudos liceais. O caso Cabrita – porque há um caso António Cabrita – é feito de igual fibra. Acrescido de que há em Cabrita um tal alagamento das práticas discursivas, no limiar do combináveis, e uma convivência comunal com tópicas tão afastadas, que é uso atribuir a quem assim se entrega à escrita, um epíteto pouco querido pelos estudos literários, os quais se encarregaram de arredá-lo para a secção das curiosidades & imposturas: o polígrafo. Mas não nos enganemos, porque o que em Cabrita compõe a matéria genológica não tem o aspecto de uma polimorfia instintiva, ou seja, e tomemos o exemplo do recém-editado e muito inclassificável romance Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins (2026), a naturalidade romanesca, ou seja, o jus naturalis do contracto de leitura narrador-leitor, não está corrompida por essa pecha caco-modernista do “poli-autor” que é narrador, que é narratário, que é narratante, que é inter-narrante, que é narratólogo, e demais acrobatas narratológicos, e que de um modo geral arrebata o espanto dos leitores mais deslumbrados por foguetórios experimentalistas.
Da Santidade…, apesar de uma economia muito controlada, e quase canónica na organização em três partes e trinta e um capítulos (Camilo não faria diferente), romance de quem maneja com destreza os mecanismos da arte da narrativa, é no entanto de uma inventividade arriscada, e pouco vista, tanto na marcação do tempo, como na demarcação dos espaços, o que o torna por vezes numa peça deslassada, mas que é possível sirva melhor à caracterização da vida e dos episódios que ocorrem nas geografias austrais em que ele se passa. Além de um elenco onde entram figuras históricas e personagens reais, como Rui Knopfly, José Craveirinha, Anastácio Matavele, e da recriação de factos verídicos, Da Santidade…, que não é um romance histórico, ou de reconstituição histórica que seja, e que no fim é apenas sobre a complexíssima arte de consumar laços num cenário de conflito, exibe, a) uma trouvaille deliciosa, b) uma maravilha narrativa, c) um prodígio ficcional, e d) um triunfo cultural, nenhum deles, diga-se, fácil de tecer, ou até de saborear, mas que, supinamente marcantes, dão ao romance um travo bravio a coisa do fim dos tempos: a) a descrição do hábito escato-erótico, que dá título à Parte I, «Um cachimbo metediço», praticado por Germana, o de fumar cachimbo pela vagina; b) o episódio no Capítulo 3 da Parte II, sobre o parto espontâneo na exacta madrugada do 25 de Abril de 1974, e cujo relato enxuto menoriza simbólica e definitivamente a celebrada descrição da mesma manhã no final do Capítulo VII de Alexandra Alpha de José Cardoso Pires; c) o sequestro e cativeiro de Domingo, o protagonista, por um grupo armado, algures no mato entre Pemba, Macomia e Palma, em Cabo Delgado, Moçambique, e que é engendrado e contado como uma recriação pingada por The Heart of Darkness de Joseph Conrad, mas transformando Domingo, simultaneamente com titilação e calafrio, num híbrido do Marlow e do Kurtz conradianos; d) salvaguardados o maior cuidado e o maior escrúplo que devem ser postos na alacridade com que se o diz, Da Santidade… é um romance colour blind, o que se na tradição dos estudos pós-coloniais anglo-saxónicos constituiria uma execração, no contexto das literaturas autoctonicistas do sul global, sobretudo as do quadrante africano, representa um desanuviamento tão descomplexado dos estereótipos etno-exotistas, que acaba como uma pequena raridade, tanto como por ser uma assinalável glória, sobretudo porque não é postura fácil de sustentar, nem façanha fácil de realizar (aliás, não lhe iria mal, ao livro, um disclaimer: “don’t try this at home”).
Mas há ainda mais em Da Santidade…: o retrato, sem falsa comiseração, de relações familiares cruentas mas que teimam em vingar, e animam o engenho romanesco; o uso de um léxico desusado, mas suculento, onde não se alardeiam dialectismos de belo efeito, e que matiza a leitura sempre com estranha beleza («começou a… verrumar, a verrumar no silêncio dela» [DS: p. 14], «custava manter uma frase no ponto,… nem comprida, nem seca… nem embiocada» [DS: p. 47], «discreteavam sobre a tasseomancia» [DS: p. 55], «o mau humor da brabeza assentava-lhe todo na barba iracunda» [DS: p. 59], «Domingo apanhou-se a jiboiar no rosto dela» [DS: p. 61]) «este país vai empequenecer» [DS: p. 127]), e que por isso torna mais escusada e indesculpável a ocorrência de figuras gastas, quando não saídas do repertório dos clichés («Saul andava mesmerizado» [DS: p. 8], «assuntos da intimidade… não eram a sua praia» [DS: p. 19] «engolido por hostil Leviatã» [DS: p. 61]), bem como o recurso indolente e muito cansativo ao hipérbato na adjectivação em descrições mais longas («as rudes mesas da cantina», «os manchados cadernos de papel reciclado», «as toscas mesas de cabeceira», «o desaparecido navio», «uma partilhada cerveja quente» [DS: p. 63-64]; e por fim, também, há aquele gosto muito desinibido pela debitação de reflexões chãs, que não se alçam ao estatuto grandissonante da máxima, do aforismo ou da fórmula filosofante, e que resultam da observação do mundo sem susceptibilidades que o romance frequenta, enredado numa constelação de petites-histoires que lhe granjeiam uma graça cheia de nobreza; por exemplo: «De comum, o que é um corpo? A obscurecida matéria resinosa que sobrou duma conflagração da gravidade. O de Germana, pelo contrário, acrescentava leveza ao ar que a rodeava. Embora, estranhamente – concluía Domingo, visto ser Germana telescopicamente mais bonita ao vivo do que aparentava no video –, ela não fosse fotogénica e fosse mais para o redondo» [DS: p 71].
4.
A gemiparidade Carlos de Oliveira, António Cabrita, não pode ser levada muito para além daquela quase bizarria do escritor que é duplamente talentoso, excelentíssimo e próspero, tanto na criação poética, quanto na ficção em prosa. Não só há circunscrições temáticas que os afastam, como não partilham igual órgão de ferramentas (nos poemas, por exemplo, Oliveira é cultor de uma silogística naturalista, Cabrita, da elipse aurática). Há, no entanto, um topos da criação literária que configura um recinto que é frequentado por ambos, e que, curiosamente, os torna quase sobreponíveis, mormente na produção ficcional. Trata-se da construção e caracterização de um território de pertença, e que quer num, quer no outro, é irredutível ao simples motivo do espaço aristotélico ancorado na unidade de tempo e lugar, isto porque está de tal jeito irrigado pelas histórias de vida, pelas peripécias narrativas, mas ainda pelas condições sociais, pelas trocas societais, pela estrutura sociológica, pela mercancia dos afectos, o negócio das aspirações, o comércio dos azares, o tráfico da dor, a meteorologia das memórias, a atmosfera antropológica, que tais recintos não são bem cenários de acção, são lugares de fábula. Em Oliveira, esse território é a Gândara, omnipresente em todos os romances do autor e sobejamente estudado. Em Cabrita, são as Torcatas.
O Largo das Torcatas, em Almada, é o epicentro de dois livros de António Cabrita, a colectânea de contos As Cinzas de Maria Callas (2025 [1997]) e o romance Se Não me Quiseres Amar Agora no Inverno, Quando? (2025), que foi agraciado com o “Prémio Armando Baptista-Bastos” em 2024. Não é apenas por essa razão que as duas obras são geminadas. O conteúdo autobiográfico que as alimenta chega a transitar entre elas praticamente verbatim, como também com pequenas variações de recorte virtusosístico, ou ainda em declinações extravagantes, o que as transforma, às obras, num díptico concebido com mão tão dextra e espírito tão fino, que pode dizer-se estarem sequestradas por uma originalidade eutanasiante. E mais, com um tratamento da matéria que narram a tal nível desorbitado dos usos e tradições da narrativa em Portugal, que fica bem destapar-lhes a chispa de escândalo que guardam. Referimo-nos sobretudo aos motivos ligados à vida íntima, sejam de âmbito familiar, de representação do corpo ou de índole mental, e que leituras impacientes ou puritanas associarão à figura do dissoluto. O que é irrefragável é que a excelência da prosa de António Cabrita seja uma varinha transformadora do prosaico em coisa estranhamente poética. O que acontece desde logo na descrição das Torcatas, uma magnífca ecfrásis em Se Não me Quiseres Amar…, que cruza primor geométrico e moldura social:
O Largo das Torcatas é um local de convergência a que afluem várias ruas e organiza-se em torno de um mercado e das lojas adjacentes, com a particularidade do mercado se situar numa cave e de sobre a sua área se ter edificado uma praceta, com mais lojas e prédios de arrendamento. Constituem-no, portanto, duas zonas, a artéria em ípsilon que vinda da Nuno Álvares Pereira bifurca na Avenida Cristo Rei e na Rua Padre Firmino da Silva e essa praceta sobranceira à estrada. [SQ: p. 174]
Este território, que, na descrição acima, para citar um título de Carlos de Oliveira, surge praticamente como uma micropaisagem, vai-se ampliando na prosa de António Cabrita até se tornar em imagem sinedóquica do espaço suburbano expandido e do processo de suburbanização generalizada, que, com mais de meio-século de andamento, ainda não foi tópica (the suburbia) tratada com a merecida fortuna pela literatura portuguesa, nem em poesia, nem em ficção. António Lobo Antunes fê-la entrar com desassombro no romance, sobretudo a partir de A Ordem Natural das Coisas, mas acabou a trabalhá-la como matéria de estetização crassa e também incerta, ora impressionista, ora expressionista, sempre, lamentavelmente, no limiar de uma estilização caricatural, e, mais danoso, como denúncia balzaquésque ou zolésque dos males do mundo. Para compor uma boutade de aparato, Lobo Antunes fez pior a meio-século de suburbanização em Portugal do que cinquenta anos de mau planeamento territorial.
Sucede então, pois, que os relatos de Cabrita sobre a vida – e no caso, a sua própria vida, de criança a adolescente, de adolescente a jovem adulto, e depois ainda de regresso, já não tão jovem adulto, a seguir a uma longa ausência –, no subúrbio das Torcatas, no subúrbio de Almada, subúrbio de Lisboa, espaço que está marcado por uma dupla marginalização sócio-geográfica, mal se fala na Outra Banda, na Outra Margem, são o retrato – e tomamos o devido recuo –, da maior revolução sócio-económica, da maior alteração cultural, da maior mudança de mentalidades que ocorreram no território português logo a seguir ao abandono dos campos, e anterior, mas também em simultâneo, ao retorno das colónias. Cabrita percorre com rigor de olhar, mas também presença de espírito, e, mais esplêndido, com liberdade de coração, todo o espectro corrido dos temas da vida suburbana, do desenraizamento ao ressentimento de classe, da ascensão social à proletarização, da realização profissional à economia ilícita, das aspirações pessoais à convivência colectiva, da coabitação familiar à independência individual, da escolaridade lassa à delinquência juvenil, da aprendizagem amorosa à promiscuidade sexual, da consciência política ao escapismo cultural. Fá-lo com tal denodo de meios e de recursos narrativos que arrebanha desde a reportagem à confissão, da entrevista à elucubração, do solilóquio à preleção, do testemunho epistolar ao pastiche científico, isto em Se Não me Quiseres Amar…, o que o transforma num livro tão heteróclito e incorrecto, que ficamos na presença de um petit-monstre literário, a merecer autópsia, estudos avançados, e, quem sabe, para hiperbolizar a nota, uma linha de investigação, e a que o autor se deu o cuidado, numa secção extra-fabulam de título «Estampidos & Verificações», com sabor impagável a nota apócrifa, de revelar a devida fórmula sintetizada nessa finíssima lamela de nome «autoficção»:
Nos livros em que tratei da infância e adolescência como material narrativo recriava sobretudo ambientes. (…) Recorria a vinte e cinco por cento de vivido e de memória, o mais era imaginação. Este meu livro, Se não me quiseres amar agora, no Inverno, quando?, funciona, em relação aos outros livros, como o negativo para as fotografias analógicas. Não apenas porque aqui inverti os termos e uso setenta e cinco por cento de memória contra vinte por cento de coisas inventadas, [sendo que] esta novela é uma longa e digressiva desbunda do narrador, em balanço de vida, e os personagens aparecem como figurantes especiais. [SQ: p. 274]
Aceitando com benevolência que se alegue como método o mais que consabido processo de combinação de memória, autobiografia, autoficção e imaginação, isto como enunciado daquilo que é a ficção tout-court, o que fica por dizer, e que aqui se vem asseverando, é que há um território próprio para que aquele empreedimento literário possa consumar-se, e ganhar sentido humano, artístico, estético, anímico, o que seja, e que está umbilicalmente ligado às respectivas qualidades morfológicas e circunstâncias sociais. O subúrbio é esse território, a um tempo difuso, impuro, inquieto e inconseguido, onde a fusão e liquefação do que foram normas e costumes literários permite que se instale um regime ficcional que solicita o acabamento e a completude desse território mesmo, e que é, por isso, autoficcional. O subúrbio autoficciona-se, do mesmo modo que antes, os campos, as terras, as nações, os países e as cidades ficcionaram as suas origens, os seus nomes, os seus povos, os seus próceres e as suas avenidas. É o que ressuma, e com o qual tanto se aprende, destes livros de António Cabrita, que não deverão deixar de fazer entrada futura no rol dos estudos das mutações urbanas em Portugal. E que se formos mais intrépidos a fazer deles um levantamento, desde a relação deterioriada com um pai debaixo de um desaire de trabalho, ao retrato de uma mãe consumida pela desilusão profissional, ao relato da decadência do nome e da linhagem de família, até à expulsão para a periferia, ao medo do recrutamento para a guerra, ao refúgio na leitura como expiação de um fracasso escolar, aos insucessos amorosos, até à formação estético-filosófica pela camaradagem com um velho vizinho de origens duvidosas, e até a um dos mais belos e comoventes motivos da vida suburbana, a fuga de casa para, cheio de cansaço existencial, perder-se na grande cidade como um flâneur baudelaireano, ou como um blasé simmeliano, ou um dandy wildeano, ou um dilettante pasoliniano, ou simplesmente um vagabond à la Brel, concluiremos que a «autoficção» de Cabrita acerta ponto a ponto com a grande autoficção do subúrbio americano à Saul Bellow, à Joyce Carol Oates, à Philip Roth, e que ocorreu dez lustros e meio antes. De resto, não cairia mal dizer que o Cabra (Cabrita himself?), protagonista do conto «A Luva Amarela» de As Cinzas de Maria Callas, um dos contos perfeitos da colectânea – e com certeza, o conto mais corajoso e acre de todo o contismo e de toda a narrativa portuguesa –, é um Portnoy da Margem Sul. Mais: António Cabrita é um Roth das Torcatas.
5.
Convirá recordar, e essa é uma das características capitais do genius suburbano, é que o subúrbio é um lugar de possibilidades. Na teoria social, fala-se de mobilidade. Na urbanística, de acessibilidade. As estéticas da cidade traduzem-no por circulação. Ao contrário do cenário rural, com os seus papéis pré-determinados, e do palco da cidade, com os seus papéis ora atribuídos, ora distribuídos, no ciclorama do subúrbio, os papéis são inventados, fantasiados, enfim, ficcionados. É por isso que, ao contrário da Gândara de Carlos de Oliveira, lugar tanto de desolação como de encantamento, mas seguramente de sujeição, as Torcatas de António Cabrita são um lugar de emancipação, atribua-se-lhe um sinal transgressivo, ou o sentido de salvação:
No princípio da adolescência, eivado por um difuso sentimento de justiça ou por uma índole moralista nascida dos escaninhos mais obscuros do meu inconsciente, eu desejava aformosear tudo o que me rodeava. Com a boca cheia de salmos, queria enobrecer a tudo e a todos. Nenhuma Palavra me penetrara directamente da Bíblia, devido ao suposto mistério da surdez, mas algo enviesado, como escutá-la pela sua ausência num búzio, terá acontecido para ter começado a reconhecer na cidade o enorme esófago negro duma entidade maligna e carenciada de luz, de alguns poros de luz: cabendo-me a mim a tarefa de distribuir os dons, o bem./ Eu tinha descoberto o Lawrence da Arábia e ficara perdidamente atraído pelas figuras salvíficas, que constroem um destino. Eram os meus heróis. [SQ: p. 146]
É por esta razão que os processos de alienação, das consciências e dos actos, têm na paisagem suburbana um caldo de cultura que alimenta a imaginação e a expressão literárias de forma amavelmente despencada e desestruturada, ao ponto de o subúrbio se tornar atópico, ou seja, aquele lugar sem lugar, ou que fica em qualquer lugar ou em lugar nenhum, no muito repisado nenhures, representado, geralmente, pelo empreendimento imobiliário disforme, ou por aqueles excursionistas que perderam o norte e já não sabem para onde vão, o que aproveita a Cabrita para compor passagens cheias de irrisão e de ironia, mas também de ternura:
Normalmente, o circuito desses passeios incluía passarem ao ralenti à frente do Sheraton, para umas exclamações estentóreas, seguindo-se o Marquês, subindo às Amoreiras e rumando na direcção da ponte Oliveira Salazar, que era atravessada com pasmo e euforia. Depois iam à missa das onze no santuário do Cristo Rei, onde se agradecia aos céus a excelência da engenharia portuguesa, e por fim, santificados, reconciliados com a pátria, iam morfar as bifaninhas e o franguinho, regados a tintol, no umbroso eucaliptal em frente ao Canecão. Os mais abonados iam mesmo à cervejaria. Contavam-se pelo menos duas excursões destas por semana, negócio que a construção da Lisnave veio decapitar./ Toda aquela ala da avenida Frederico Ulrich, coroada pelo Canecão, de construção alta, com prédios de grandes arcadas, e quarteirões, pracetas inteiras construídas em altura, do décimo andar para cima, era o orgulho dos jovens pobres da cidade; nela sentíamo-nos projectados no mundo moderno e na sua miríade de atracções. Muito nos admiraria se nos afirmassem que trinta anos depois olharíamos para aquela zona da cidade como um atentado a qualquer sensibilidade urbanística e aqueles prédios, que tanto assombro nos causavam, como mamarrachos, pato-bravices imperdoáveis. Para nós representavam indeléveis marcas civilizacionais, aureoladas pelo rock que se ouvia em algumas janelas. [CM: p. 157-158]
O que está ainda por sentenciar é que tanto em As Cinzas… como em Se Não me Quiseres Amar…, além do engenho ficcional inquietante, de que não pode deixar de destacar-se, do primeiro, o conto – ou anti-conto – «O Beijo no Arame», uma demanda extensa e meticulosa sobre o momento mais probo para a iniciação amorosa («”Um beijo é um gesto honesto, que não deve mentir.”/ “Bem me parecia que és daqueles que se preocupam com a cor da chuva, vamos?”» [CM: p. 160]), e do segundo, a organização em capítulos e intermezzos (nos quais cabem desde uma carta a um filho que não nasceu, a reflexões meta-narrativas e meta-ficcionais), há uma sofisticação na prosa de António Cabrita que gostaríamos de traduzir por requinte, descontando o que no termo possa andar conotado com maneirismos ou barroquismos. É coisa que se observa, em primeira instância, no uso de um léxico ponderoso, e que resulta num linguajar que tem tanto de excêntrico quanto de persuasivo, o que enforma aquilo que mais conta na fruição literária, o idioma do autor. Os exemplos são abundantes, com adjectivações aveludadas que apanham desde «uma capital merencória» [SQ: p. 68] ao «sangue hialino» [CM: p. 207], e ainda com acasos arrevesados como o «sentia-se participar numa espécie de trepanação indolor» [CM: p. 123], ao «…quanto nos locupletáramos na boda» [CM: p. 211], até a «[o engraxador] sentara-se com estúrdia no banco do lado» [CM: p. 232 ]. Todavia, a bem de um propósito representativo, e a título simbólico, não poderia ilustrar-se melhor o idioma desta prosa convincente e assaisonnée do que com a seguinte passagem da narrativa «Expressões Latinas e Estrangeiras»: «Na madrugada em que se tornou evidente a necessidade de internar o meu pai saí de casa com o sentimento do arúspice que esventra o amigo mais estimado para revelar à cidade um destino funesto» [CM: p. 227].
A cada tanto, o milieu da literatura portuguesa é atravessado pela contenda acerca de quem carrega o troféu de praticante da melhor prosa em exercício. Há volta de duas décadas, depois de ter caído nas boas graças das vendas livreiras à custa de um romance com uma capa vistosa, dizia-se que o melhor prosador português era Mário de Carvalho, que acaba de ser chutado para o ringue dos programas escolares e examinatórios. Antes dele, ter-se-á dito que era Fernando Assis Pacheco. Depois, um depois que é agora, o patim lá de cima dessa escada, diremos nós, está ocupado pela prosa especialíssima de António Cabrita. E não haverá sequer necessidade de entrar pelo extraordinário volume de contos Make Sequóias Great Again (2025), com as suas histórias distópicas, a sua estética do desconchavo, e que guarda uma jóia da narrativa em português, a Secção II do conto «Três Réveillons»; nem regressar ao romance comoventíssimo Fotografar Contra o Vento (2019), um pastiche da novela pícara onde habita Cosmo, uma das personagens mais elaboradas e complexas da actual ficção portuguesa; nem apontar os insucessos de As Cinzas de Maria Callas e de Se Não me Quiseres Amar Agora no Inverno, Quando?, como a propensão algo gratuita, ou talvez mal doseada, para o dirty-realism, ainda que admissível, afinal sempre se trata de tratar o subúrbio; ou a queda muito cansativa no name-dropping, sobretudo o de natureza ‘literata’ (Enrique Vila-Matas [?!], no hace falta), e não tanto o de origem cinéfila, que no caso de António Cabrita, até poderíamos dizer cineclasta, ou não seja ele o poeta desse verso, «ramelosa Greta sem Garbo» [AN: p. 40], do poema «Fala de Efebo» do fecundíssimo livro, já um livro de culto, Arte Negra (2000); ou não tenha sido ele ainda o crítico de cinema, um nosso herói – nós os que nas datas de noventa do século passado, com vinte anos mal feitos, penávamos entre a programação unipessoal da Cinemateca, e os multiplexes monoculturais, propiedade de um único produtor e distribuidor nacional com reputação na Rive Gauche –, não fosse Cabrita, o crítico que nos ensinou a gostar do João de Deus, e num texto que nos lançou no espanto, nos ter explicado por que é que apesar de Francis Ford Coppola ser melhor realizador do que Abel Ferrara, Bad Lieutenant (1992) era um muito melhor filme do que Bram Stoker's Dracula (1992).
É no meio da turvação do cinema que chegamos ao ponto em que esse excelsamente culto, e cultivado, cumulus nimbus que é a poesia de António Cabrita, vem interpelar-nos. E que com o mais recente Viagem aos Confins & Volta (2026), o poeta confirma o seu muito exigente motivo poético maior, o da antiquíssima katabasis [κατάβασις] – a viagem a e o regresso de alhures –, que, por certo, não deixa de assemelhar-se ao motivo da vida no subúrbio: cair nela, estar nela, sair dela. Três tempos que o poema «Póetica» de Viagem aos Confins… formula num zeugma belíssimo: «Velhice, Venice, Veneza» [VC; p. 12].
A poesia de Cabrita? Noutra volta.
João Borges da Cunha, 11 Jun '26
Obras
Viagem aos Confins & Volta (2026) [VC], The Poets and Dragons Society
Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins (2026) [DS] Teodolito
Se Não me Quiseres Amar Agora no Inverno, Quando? (2025) [SQ], The Poets and Dragons Society
As Cinzas de Maria Callas (2025) [CM], The Poets and Dragons Society
Make Sequóias Great Again (2025) [MS], The Poets and Dragons Society
Fotografar Contra o Vento (2019) [FV], Editora Exclamação
Arte Negra (2000) [AN], Fenda
Crie seu próprio site com Webador